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segunda-feira, 9 de julho de 2018

Desilução política e fé cristã - um relato de um encontro

No dia 30 de junho ocorreu mais um evento do projeto “quem tem medo de bicho-papão”. O tema da vez foi “desilusão política e fé cristã”. O evento foi coordenado pelo Felipe Cavalcante da Costa, e o convidado foi o pastor batista José Barbosa Jr. Abaixo, seguem anotações tomadas durante o evento, que contou com a presença de 17 pessoas. Aguardamos em breve o vídeo que trará a discussão na íntegra.



Segundo Ruben Alves, o político é um jardineiro, já que Deus criou um jardim, e não uma cidade.  E o jardineiro em a possibilidade de transformar o sonho de um jardim em um jardim de verdade. O jardineiro vocacionado trabalha por amor; o profissional, pelo dinheiro. E para que a sociedade seja um verdadeiro jardim,  o político deve ser o vocacionado, e não o profissional - porque este é um gigolô, movido pelo dinheiro que lhe chega às custas do outro. A luta hoje é entre o amante e o gigolô, entre o político vocacionado e o profissional. E os vocacionados muitas vezes se escondem, com temor de serem vistos como profissionais. E no Brasil há muito jardim privado, e pouco público…Há muito jardineiro que pode se doar para a comunidade.
Evangelho e política estão entrelaçados. O termo evangelho, “boa nova”, era aplicado aos pronunciamentos do imperador. O evangelho anuncia um Reino (termo político), um Senhor (termo político).
E, sociologicamente, o homem é político e religioso, mesmo que alguém negue essas faces inseparáveis.
O descrédito com a política é um projeto de poder. E reencantar com a política é um projeto de poder de oposição ao primeiro.
O descrédito também passa pelo fato das pessoas terem coragem, hoje, de assumirem posturas que antes eram vergonhosas: machismo, racismo, homofobia…
O evangelho traz esperança à medida que proclama a dignidade de todas as pessoas. Quando Jesus expulsa o demônio para uma manada de porcos, que se atira ao mar, Ele faz uma denúncia política. O demônio se chamava “legião” (termo aplicado à divisão maior do exército romano), é enviado a animais impuros (remetendo à religião). E no sermão escatológico quando Ele fala sobre o julgamento final, é um julgamento das nações, e não das pessoas - é um julgamento sobre decisões políticas das nações onde Jesus Se coloca como o oprimido, faminto, pobre, doente.
O livro do Apocalipse, se estudado corretamente, é um antídoto contra o desânimo.
Pode a igreja evangélica influir nas eleições deste ano? Teoricamente, 28% da população pode eleger o presidente, ou metade do congresso. O que é o projeto de poder da assim chamada “bancada evangélica”.
Demoniza-se as religiões de matriz africana, o que é resquício da escravidão. É hipocrisia encher a bilheteria de filme do Thor (deus pagão da mitologia nórdica, branco, de olhos azuis), mas não se pode comprar um boneco de Ogum ou Xangô (deuses da mitologia africana, negros, de cabelos crespos).
Muitas vezes os políticos chegam com respostas prontas para perguntas que não foram feitas. Assim como a igreja...Jesus interage com as pessoas e Suas ações são consequência desse diálogo, onde Ele serve, e não é servido.
A cultura do ódio dá dinheiro, mas o Evangelho de amor não!
O poder não corrompe, apenas demonstra quem é corrupto. Prestar contas, cercar-se de pessoas críticas, ser humilde no trabalho é um fator de proteção para o vocacionado (o amante, aquele que ama) não se tornar o profissional (o gigolô, aquele que se aproveita do outro)..
As falhas do jardim, do seu projeto, devem ser sempre denunciadas, em prol da transparência e dignidade.
Quando há crimes de ódio (feminicídio, assassinato de homossexuais) e a igreja se cala, não é uma postura política?
O pastor tem o público que todo político sonha: pessoas que estão dispostas a acreditar nele, e pior, acreditar que Deus é que fala. E o clérigo está em uma estrutura de poder que não é questionada.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

CARTA ABERTA DO SERVIÇO ASSISTENCIAL DORCAS ÀS IGREJAS E Á SOCIEDADE EM GERAL - SOBRE O SUICÍDIO





O Serviço Assistencial Dorcas, entidade cristã de caráter humanitário, sediada em Belo Horizonte (MG), composto por profissionais de diversas áreas, após ter patrocinado em duas ocasiões debate sobre o suicídio, compartilha com as igrejas cristãs e as suas lideranças as seguintes preocupações:



1. o suicídio é um fenômeno social, não há como ignorá-lo. A Organização Mundial da Saúde estima em 800.000 mortes anuais por esta razão, sendo a 15ª causa de óbito para a população em geral. E quando se restringe o olhar para a faixa etária entre 15 e 29 anos, torna-se a segunda causa de morte. Como é um evento provavelmente subnotificado (nem todos são contabilizados, por serem ocultados em função do preconceito e vergonha) o número de pessoas atingidas deve ser maior.



2. os dados do ministério da saúde mostram que o suicídio, ou sua tentativa, não está limitado a um gênero específico (homens e mulheres são afetados), ou a uma idade determinada, ou a uma profissão específica.



3. não há nenhuma característica que, genericamente, confira proteção absoluta a uma pessoa, e pensar em autoextermínio ao menos uma vez na vida ocorre com um grande número de pessoas.



4. nas igrejas cristãs, principalmente as evangélicas, não é incomum o preconceito, o estigma contra a pessoa que tenta ou que consegue se matar. A experiência compartilhada dos membros do Serviço Assistencial Dorcas é que essas pessoas são vistas não como seres humanos normais, mas pecadoras de uma forma tão especial que são postas fora do alcance do cuidado Divino (que se materializa e se torna real através da ação de Suas filhas e filhos adotivos).



5. esta carta é para chamar a todos os cristãos, e, por que não, a todos os que professam qualquer religiosidade (seja deísta, ateísta, materialista, etc.) a:
a) estudar e se informar sobre o suicídio de modo aberto, não preconceituoso;
b) perceber que qualquer pessoa, em determinado momento de sua existência, na dependência de fatores de pressão dos quais não consegue se livrar, pode ser levada a este ato;
c) ter um olhar de misericórdia e não de condenação a estas pessoas.



6. aos cristãos em especial propomos, tendo as Sagradas Escrituras abertas frente aos nossos corações, avaliar:
a) os preconceitos que temos sobre este assunto
b) as posições teológicas aceitas como verídicas sem uma análise aprofundada
c) se não pecamos:
c.1) na nossa forma de organização como igreja
c.2) no nosso modo de nos relacionarmos uns com os outros
c.3) na preocupação excessiva com o comportamento correto do próximo no lugar da preocupação adequada e amorosa para com as dificuldades e fraquezas mútuas;
c.4) contra nossos líderes e nossos pastores
- ao idealizá-los, fazendo-os ídolos de perfeição no lugar de pessoas pecadoras e redimidas que também estão em busca permanente de santificação
- ao sobrecarregá-los de tarefas e trabalhos que outros podem assumir;
- ao não respeitar seus dias semanais de descanso e seus períodos de férias regulares;
- ao não lhes proporcionar apoio psicoterápico especializado quando necessário
- ao não lhes proporcionar ombro amigo e discreto através de um ambiente de comunhão confiante onde eles possam ser eles mesmos e se exporem sem receio de críticas ou de perda de emprego ou status.



7. O Serviço Assistencial Dorcas, com o intuito de buscar uma melhor saúde coletiva, entende ser imprescindível:
a) a criação de espaços de discussão sobre o tema, a fim de quebrar mitos e reforçar verdades deste fenômeno tão presente na atualidade.
b) compreender as atitudes a serem tomadas ao encontrar pessoas nessa situação de risco
c) ao detectar risco de suicídio garantir o suporte pastoral e profissional (psicólogos e psiquiatras) - este último através da Rede de Atenção do Sistema Único de Saúde.
d) garantir suporte à família de pessoas que tentaram e/ou consumaram o autoextermínio, com o intuito de aliviar o sofrimento, que pode perdurar por anos se não tratado adequadamente



Belo Horizonte, 10 de junho de 2.018

domingo, 1 de abril de 2018

Existe racismo entre os cristãos?





O primeiro evento do projeto “quem tem medo de bicho-papã” contou com quase trinta pessoas e mostrou, no debate, como a dificuldade em lidar com o diferente, em lidar com o risco de abrir mão dos próprios valores, está enraizado nas nossas mentes. Ele foi conduzido por Jorge Eduardo Diniz, pai de um casal de filhos negros, pastor por vocação.

E racismo não quer dizer apenas negro e branco.

O tema foi introduzido através do quadro acima. O que ele retrata? Quando não se conhece o seu título, seu autor, sua data de composição, a imaginação flui livre. E o que foi mostrado é como a imaginação está presa aos conceitos e ideias que carregamos conosco.

Mas se a imaginação é substituída pela observação cuidadosa, alguns detalhes caminham na direção do título da obra.

A obra aborda as controversas teorias raciais do fim do século XIX e o fenômeno da busca do "embranquecimento" gradual das gerações de uma mesma família por meio da
miscigenação.

Na obra de Modesto Brocos, em frente a uma pobre habitação, três gerações de uma mesma família são retratadas. A avó, negra, a mãe, parda, e a criança, fenotipicamente branca. A matriarca, com semblante emocionado, ergue as mãos aos céus, em gesto de agradecimento pela "redenção": o nascimento do neto branco, que será poupado das agruras e das memórias do passado escravocrata. A cena foi assim definida por Olavo Bilac: "Vede a aurora-criança, como sorri e fulgura, no colo da mulata - aurora filha do dilúvio, neta da noite. Cam está redimido! Está gorada a praga de Noé!".

Qual é essa praga?

Noé, aquele que foi salvo no dilúvio junto com sua família, ficou, em certo dia, alcoolizado. E deu vexame. Seus filhos Sem e Jafé o socorreram, enquanto Cam debochou. Após recobrar a consciência, o velho pai tomou conhecimento dos fatos, e amaldiçoou o último. Por uma razão que não é possível dizer ser bíblica, afirmou-se, durante séculos, que as pessoas de cor negra seriam descendentes de Cam, e por isso a escravidão, o menor desenvolvimento tecnológico, e todos os aspectos desfavoráveis relacionados a ela seriam consequências “justas” desta maldição de milhares e milhares de anos atrás.

Quem criou essa farsa? quem a transmitiu de geração em geração?

Não adianta fechar os olhos. O racismo existe e está presente em toda a sociedade, inclusive no meio cristão.

Como a igreja pode abordar e combater este mal?

Qual é este mal?

Experiência do palestrante: pai de dois negros, um rapaz e uma moça, ouviu diversas vezes, em diversos lugares, inclusive entre cristãos, se eles eram adotados.

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA): a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior do que a de um branco, segundo uma levantamento divulgado em 2013.

Mas racismo está impregnado nas instituições, sejam formais, sejam informais. É o que se conhece como racismo institucional: negro correndo, é ladrão (o branco, faz atividade física); mulher negra em tarefa doméstica, empregada (branca, dona de casa); negro de terno, segurança de shopping (branco, executivo). E esta impregnação afeta até a teologia, porque ela é realizada através de pressupostos que têm raízes na cor, no estrato social e econômico, na cultura empoderada pela tecnologia e abundância econômica. Ela não é feita pela pobre, pela mulher negra, pela pessoa economicamente vulnerável e que conhece na pele o que é fome, conhece na alma o que é ser desvalorizado pela cor da pele ou pelo quanto de dinheiro carrega consigo.

Racismo é tão comum que as frases seguintes não são consideradas preconceituosas:
  • “não sou racista; tenho até amigos negros”;
  • “por que você não penteia o cabelo?”;
  • “você não é negra, é moreninha”;
  • “você é privilegiado, você é cotista”;
  • “para uma negra você é até bonita”;
  • “para ser um advogado tem que cortar este cabelo”;
  • “você não é negra. Seus traços são finos, e sua pele nem é muito escura”

O pastor Francisco Carlos de Oliveira, da igreja Nova Vida de Piúma. Negro, com 59 anos, sendo 29 voltados para a vida ministerial como diácono e pastor, passou por diversas experiências em que foi vítima de racismo dentro da comunidade cristã. “Fui recepcionado por uma mulher branca, membro da igreja, que deixou bem claro que não era para eu estar ali. Disse que a igreja precisava de um pastor e não de um diácono como eu, e ficou nítido que era por causa da minha cor de pele. Isso me levou às lágrimas. Durante um ano, tive que conviver com discriminação na forma de falar, de olhar, de tratar da própria igreja. Mas, depois de um ano, após observar o meu trabalho, a mesma mulher que me recepcionou veio me pedir desculpas por ter me tratado com discriminação”.

No Novo Testamento há claras orientações contra qualquer tipo de racismo - é importante lembrar que racismo não se limita a discriminação dos brancos contra os negros (ou o inverso). Racismo é toda atitude que leva ao desejo de humilhar o outro por uma característica que não nos agrada, ou sobre a qual jogamos nossas dificuldades e frustrações.

O apóstolo Tiago adverte: “meus irmãos, como crentes em nosso glorioso Senhor Jesus Cristo, não façam diferença entre as pessoas, tratando-as com parcialidade”.

a Igreja de Antioquia – uma comunidade de fé majoritariamente helenista –, nos dá uma bela lição sobre a igualdade racial e o empoderamento das etnias na comunidade nascente (At 13).

Paulo é apóstolo de todo aqueles não judeus, sem distinção de classe social, nacionalidade ou gênero.

Paulo escreve a Filemon, Afia e Arquipo rompendo a lógica escravista do império romano.

Na história da igreja, exemplos positivos de cristãos isolados no meio de uma cultura cristã: O inglês Willian Wilberforce, no século XIX, dedicou sua vida na luta abolicionista na Inglaterra. Foram 40 anos até que uma lei pondo fim ao tráfico de escravos fosse aprovada. Com sua experiência política e sua fé firme no Senhor, ele pôde ver seu país extinguir o comércio de escravos e influenciar todas as outras nações que ainda se beneficiavam desse mal. O batista Martin Luther King combateu a segregação racial nos Estados Unidos e batalhou pelos direitos civis dos negros. Mesmo enfrentando ameaças, agressões, prisões, maus-tratos à sua família, ele não desistiu. Um atentado encerrou sua carreira precocemente.

Na história da igreja, um desastre: Mahatma Gandhi ouviu muitas coisas boas sobre o missionário Charlie Andrews, a quem chamavam de “o fiel apóstolo de Cristo”, Gandhi foi tentar ouvi-lo. Mas, na primeira oportunidade, foi expulso do culto porque a cor da sua pele não era branca. Mais tarde, ele e Andrews tornaram-se grandes amigos, mas o indiano nunca se esqueceu da dor daquele incidente. Ao comentar as experiências de Gandhi, o missionário metodista E. Stanley Jones conclui que “o racismo tem sobre si muitos pecados, mas talvez o pior deles tenha sido o de obscurecer Cristo na hora em que uma das maiores almas nascidas de uma mulher estava tomando sua decisão”.

Como a igreja pode lidar com esta questão?
  • Arrependimento por ser racista
  • Inclusão em movimentos sociais
  • Educação
  • Campanhas
  • Discussões
  • Reflexões
  • Ações proativas
  • Superação do preconceito
  • Documentos
  • Pronunciamentos

Longe de ser uma questão resolvida ou enterrada no passado, o racismo ainda está presente na sociedade. E a Igreja tem um papel fundamental nessa questão: ela precisa se levantar como atalaia da verdade e ser sal e luz, ensinando que o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus.

terça-feira, 13 de março de 2018

Racismo: material para estudos baseados na bíblia

EBIs e Oficinas ABUB Contra o Racismo.zip

Um convite ao racismo

Racismo não é um assunto fácil, quando falamos de nós mesmos. É fácil quando o apontamos no olho do outro, no país do outro, no sistema social do outro, nas atitudes do outro.

Racismo não é um assunto fácil porque o significado da palavra parece que se perde com o seu uso frequente. Fica preso somente a algumas histórias, e deixa nossa realidade concreta.

Há vários conceitos. Talvez o comum a todos seja a ideia de que determinada pessoa é sempre superior ou inferior, independente de qualquer outro fator, do que outra exclusivamente por conta da cor da sua pele, do formato do seu rosto, do grupo étnico a que pertence. Os aspectos positivos e negativos de cada um não são levados em conta: importa apenas as características do grupo ao qual pertence. No mundo ocidental, os países europeus viam os africanos (de pele negra ou não) como inferiores do ponto de vista moral, cultural, civilizatório. Africanos e europeus eram, de forma inquestionável, por decisão divina, grupos de pessoas de modo algum com igual valor. Mas não somente os africanos. Foi necessária uma bula papal para que os habitantes originais do continente americano, que chamamos índios, fossem considerados seres humanos. O povo comum os consideravam “macacos com voz” (o filme “A Missão” tem uma cena significativa neste ponto) e não seres humanos.

Racismo não é uma ideia de brancos. É uma ideia humana, presente em praticamente todas as sociedades. Ela mira aquele grupo que é útil ser tratado como inferior, por interesses econômicos, políticos, culturais, sexuais ou pessoais. Atire a primeira pedra a sociedade que nunca cometeu este pecado.

Pode a igreja abrigar ideias racistas?

Pode a igreja ter atitudes racistas?

Pode a igreja ter estruturas racistas?

Este é o tema que o Serviço Assistencial Dorcas desafia você a pensar este mês.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Por que pastores se matam?

Gerson Borges

Solto a voz nas estradas
Já não quero parar
Meu caminho é de Pedra
Como posso Sonhar ?
Sonho feito de brisa
Vento vem terminar
Vou fechar o meu pranto
Vou querer me matar
(Milton Nascimento/ Fernando Brant)


Tem muitas pessoas perguntando, debatendo e conversando a respeito do assunto. Certa manhã, lidando com a minha agenda pastoral e suas infindáveis e enormes demandas bio-psíquico-espirituais, a pergunta retornou. E não fugi dela, encarei. Afinal, por que pastores se matam?

Pastores se matam porque pensam que são Deus e podem resolver tudo. Quando acordam desse desvario, quando a fatura chega, não tem como bancar. Já brinquei de (ser) Deus. Brinco mais não. Sai fora. Não tem graça!

Pastores se matam porque são pessoas boas. Só pessoas boas ficam deprimidas. Pastores-lobos ficam cínicos. São discípulos de Hofni e Finéias. Usam as pessoas. Gente que é gente se deprime. Psicopatas, a empatia é zero, mas deprimem e destroem os outros.

Pastores se matam quando vestem máscaras de santidade. Não brigam com a mulher. Tem filhos perfeitos. Nunca pecam. Oram muitas horas por dia. Respondem no mesmo dia um número infindável de ligações e esvaziam sua caixa de entrada de e-mails antes das dezoito horas. Ah, jamais deixam acontecer o absurdo de uma mensagem de whatsapp ficar mais de uma hora sem resposta. Imagina!

Pastores se matam porque não conseguem dizer não. O que vão dizer deles? Estão ali para servir. São pagos para atender a todos, o tempo todo. “Ovelha é um bicho carente, não sabe se cuidar”, alguns argumentam. “Vai que se engracem para outro rebanho, outro redil?”, outros justificam, e a acrescentam: “Pastor tem de ter cheiro de ovelha”. E quem disse que o cheiro é bom? Onde já se viu feridas purulentas do pecado cheirar a alfazema?

Pastores se matam porque querem concorrer com o consumismo religioso. Pregam o Evangelho, enquanto os Outros, os Lobos, pregam autoajuda espiritualizada. Proclamam as Escrituras enquanto os Lobos vendem prosperidade. É uma luta desleal. Lutar ingenuamente essa luta é uma máquina de moer carne.

Pastores se matam porque não podem trocar de carro sem ouvir piadinhas egoístas. Se compram uma casa – em geral, financiada a perder de vista, “estão enriquecendo à custa das pobres ovelhas”. Uma vez ouvi: “Você chegou a São Paulo com uma mão na frente e outra atrás!”. O que responder? Um comentário de tamanha mesquinharia merece réplica? Chega a dar preguiça. Sério.

Pastores se matam porque não cuidam do corpo e não brincam. Devem dormir de paletó, não é possível. “Nosso descanso não é nesse mundo”, escutei de um deles. Querem ser maiores que o seu Senhor, contrariando a admoestação bíblica. Jesus dormiu e cochilou de cansado. Se bobear, pastores não dormem nem à noite…

Pastores se matam porque adoecem, como qualquer outro ser humano e que, se não tratar, entra em colapso. Stress é o “pecado que jaz à porta” do pastor. Pecados sexuais idem. Orgulho então... O pastor, como os profissionais da saúde, os policiais e outras carreiras de risco, deveriam ser cuidados e não apenas cuidar. Quem cuida de quem cuida, como costuma perguntar a amiga terapeuta, Roseli Kunhrich? Quem cuida do seu pastor?

Pastores se matam porque passam a ler a Bíblia só para fazer sermões, porque desconhecem o ócio santo e criativo, por que não ouvem música, não namoram, não dançam, depois de um “vinho com a mulher da sua mocidade” (Pv. 5.18 ). Nem leem João Crisóstomo, Richard Baxter, Eugene Peterson, Osmar Ludovico, Ricardo Barbosa, verdadeiros pastores de pastores!

Pastores se matam de raiva, de tristeza, de crise vocacional, de frustração, de pobreza, de baixa autoestima, de falta de sexo, de decepção, de abandono, de tanto trabalhar, de falta de férias decentes, de cobranças injustas, de tanto se cobrar por não saber tudo e se cobrar para ser bom em tudo – pregar como Agostinho, Spurgeon, Bily Graham ou Tim Keller, visitar como um psicólogo ou médico da família, administrar como um CEO, pensar como um filósofo, ensinar como um PhD, ser pai como um guru familiar. Já pensou? Um profissional assim (sem falar que não podem ser profissionais – até porque não podem cobrar como um) merece que salário?

Pastores se matam aos poucos e aos montes. Quietos no seu abandono, na sua tristeza de não ser que os outros acham que são – ou querem que sejam: santos impecáveis.

Sou pastor. Não vou me matar. Não posso morrer pelos pecados dos outros. Nem pelos meus! Jesus já fez isso. Aliás, o pastor mesmo é ele. O Bom Pastor. Eu? No máximo, como diria Fernando Pessoa, sou “um guardador de rebanhos”. Pecador. Isso só e olhe lá. Se você é um pastor de verdade, “companheiro dos outros no sofrimento” (Ap. 1.8), fique esperto! Não se mate por nada. Nem por tudo. Se matar pelo rebanho, ou por ambições neuróticas e messiânicas, não tem nada a ver com morrer por Jesus.

fonte: http://www.ultimato.com.br/conteudo/por-que-pastores-se-matam

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

A verdade sobre o suicídio


(tradução da entrevista com Albert Y Hsu, autor do livro "Superando a dor do suicídio", publicada na revista Christianity Today, novembro 2017, disponível em http://www.christianitytoday.com/ct/2017/november/suicide-americans-taking-their-own-lives-church-al-hsu.html)

Como é quando alguém que amamos se suicida?
Os conselheiros chamam esse tipo de sofrimento de “luto complicado”  ou “falecimento complicado”, porque as pessoas atingidas lidam realmente com duas realidades: sofrimento e trauma. O sofrimento de perder um ente querido é normal e esperado, mas suicídio provoca trauma. Ao lidar com o suicídio não há um caminho fácil para a paz,  e a jornada de luto circula continuamente em todos os tipos diferentes de emoções e sentimentos.

Então é importante perceber que este luto vai atingir você de diferentes maneiras.
Certo. Para os enlutados, há muitas emoções que são comuns, seja angústia, dor ou culpa e vergonha de sobreviventes. Aqueles que perderam um ente querido para o suicídio muitas vezes se sentem culpados. Por que não vi isso? Por que não fiz algo para evitar isso? Então eles se sentem culpados por não terem conseguido detê-lo. Há algo errado sobre minha família, algo errado sobre o meu ente querido, e eu não quero falar sobre isso porque é vergonhoso.

Também nos sentimos um conflito interno porque se tivesse sido um assassinato, poderíamos odiar o assassino. Mas neste caso, o assassino é o amado, então nós o afligimos e nos atacamos ao mesmo tempo, o que nos deixa divididos e exaustos. Essa raiva é normal, e não devemos tentar fechá-la. Mas devemos ter cuidado com respostas mais autodestrutivas para uma perda. Alguns agredidos se voltam para o consumo de álcool ou drogas, enquanto outros podem realmente tentar encenar os passos de seus amados. Eles podem ficar segurando uma arma olhando no espelho ou em uma saliência de varanda, tentando descobrir o que estava acontecendo em sua mente. Precisamos ter cuidado com essas respostas autodestrutivas e ter a nossa comunidade de olho em nós.

Como sua comunidade cuidou de você após o suicídio de seu pai?
Nós frequentávamos nossa igreja há menos de um ano, mas meu pastor na época e sua esposa dirigiram sete horas para Minnesota (do Illinois) para comparecer ao funeral. Essa foi uma tremenda declaração de luto daqueles que lamentam e sofrem com os que sofrem.

As pessoas mais úteis foram aquelas que se fizeram presentes conosco sem  procurarem nos dar respostas e correções rápidas. Declarações e perguntas como "Conte-me sobre o seu pai" ou "O que você quer lembrar sobre ele?" ajudam o enlutado a refletir sobre a vida e não apenas a morte do ente querido.

Aqueles que ofereceram versos como Romanos 8:28 ou disseram que "Deus tem um plano", apesar de bem intencionados, machucaram. Um parente disse "Se não te mata, isso te deixa mais forte". No entanto, o que eu ouvi foi: "Seu pai não era forte o suficiente para lidar com seu acidente vascular cerebral e depressão, então ele tirou sua própria vida". O que significava como um bem-intencionado "Você pode lidar com isso" soou mais como "Seu pai não conseguiu lidar com isso ".
 
Os cristãos que se suicidam vão para o inferno?
Os cristãos geralmente assumem que o suicídio é um pecado imperdoável e que aqueles que cometem suicídio automaticamente vão para o inferno. Esse é um equívoco que acredita em uma visão transacional do pecado e do perdão, onde, se não confessarmos o pecado do suicídio depois que ele ocorra, não pode ser perdoado. Mas essa ideia vem mais de Agostinho e da teologia medieval do que da Bíblia. As Escrituras na verdade não dizem que o suicídio nos separa de Deus pela eternidade. O pecado imperdoável nunca é equiparado ao suicídio na Escritura. Alguém como Sansão morreu por sua própria mão, mas ele ainda está incluído em Hebreus 11 entre os heróis da fé. E a promessa em Romanos 8 é que "nem a vida nem a morte" nem a morte por suicídio "podem" separar-nos do amor de Deus em Cristo.

Eu estava em um programa de rádio recentemente, onde um interlocutor disse: "Eu sempre acreditei que o suicídio automaticamente envia para o inferno, e isso impediu-me de me matar. Agora estou confuso porque se você me disser que o suicídio não envia automaticamente para o inferno, isso não deixa as confiantes para cometer o ato? " 


Eu disse algo ao longo do caminho: "Bem, o suicídio nunca é visto positivamente na Escritura. Há sete suicídios relatados, do rei Saul para Judas, e eles sempre são retratados negativamente. Eles nunca são o plano de Deus para a vida de ninguém. Mas também não é o pecado imperdoável que condena automaticamente alguém pela eternidade ".
Coloquei o suicídio na categoria literária de tragédia. Na tragédia grega ou de Shakespeare, alguém é desfeito por uma falha fatal interna, e o herói trágico morre porque algo deu errado em sua história. Quando pensamos nisso e nos nossos amados que perdemos em suicídio, isso nos ajuda a entender. Não desculpa sua ação, mas nos ajuda a ter compaixão e empatia por eles.

Qual seu conselho sobre como falar do assunto com as crianças?
Em muitos casos, as famílias tentam encobrir a verdade para "proteger" as crianças. As crianças podem não entender por que um pai tomou sua própria vida e, portanto, a tentação é falar em termos como "Oh, houve um acidente" ou "Mamãe não queria tomar essas pílulas". Isso pode funcionar por um tempo, mas, inevitavelmente, as crianças crescem e ouvem a história completa de alguém que não sabe que não deveriam falar sobre isso. Não só isso os leva a sofrer a perda de seus pais dessa maneira, como também se sentem traídos por aqueles que esconderam a história. É melhor falar com franqueza, mas de modo apropriado à idade das crianças para ajudá-las a entender: “mamãe sentiu que não podia continuar vivendo. Seu sentimento era como uma doença ou doença que a impediu de ver a esperança para o futuro. Ela sentiu como se não pudesse continuar”.

Devemos tranquilizar as crianças de que não têm culpa. As crianças pequenas são particularmente egocêntricas, e muitas vezes pensam que elas causaram algo. Então, precisamos reforçar: "Não foi sua culpa que mamãe ou papai fizesse isso. Eles são responsáveis ​​por suas próprias ações ".

Após seu primeiro livro, como suas próprias crenças, pensamentos e sentimentos sobre o suicídio mudaram?
Eu me aflijo um pouco diferente agora como pouco mais de 40 anos do que eu fiz como pouco mais que 20. Eu experimentei o sofrimento inicial como uma pessoa de 20 que perdeu seu pai. Agora, quase 20 anos depois, o sofrimento muda, e me aflige como o avô que meus filhos nunca conheceram. Lamento todas as conversas que não tivemos ao longo dos anos.


O que me choca é sero suicídio tão comum. O DCCT (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) disse no ano passado que as taxas de suicídio aumentaram cerca de 24% nos últimos 15 anos em quase todas as categorias demográficas. Cada suicídio deixa, em média, 6 a 10 pessoas - filhos, pais, cônjuges. São centenas de milhares de pessoas que estão passando por essa perda todos os anos. 


O suicídio tocou muitas pessoas, e nem sempre estamos conscientes de sua prevalência até que aconteça. Infelizmente, as pessoas ficam surpresas com isso e sentem que estão sozinhos. Eles precisam saber que existem outros que passaram pela mesma experiência.

Quando se trata de suicídio, existem medidas preventivas que podemos tomar?
O livro “Prevenção de Suicídio” de Karen Mason argumenta que pessoas que estão pensando em suicídio querem ser resgatadas. Eles nem sempre podem articular este desejo, mas as pessoas que experimentam ideação suicida são muitas vezes divididas entre o desejo de morrer e o desejo de viver. Quando o desejo de morrer supera o desejo de viver ou exceder a capacidade de mecanismos de enfrentamento para lidar com suas dores, é quando ocorre o suicídio. 


Mas o suicídio pode ser prevenido com recursos, comunidades, apoio e aconselhamento. Terapeutas e conselheiros dizem que você pode reduzir a dor ou aumentar a capacidade de lidar com a dor. Isso pode ser feito através de aconselhamento, terapia, medicamentos ou antidepressivos. 


A igreja não deve ter medo de psicologia ou medicina. Às vezes, os cristãos pensam: Oh, isso não é espiritual. Se nós apenas acreditamos ou oramos mais, então poderemos curar isso. Mas, não, são maneiras pelas quais a igreja pode ministrar um ao outro. Deus nos deu pessoas que são pesquisadores e entendem medicina, química do cérebro e neurociência. Quanto melhor entendemos essas coisas, melhor podemos ajudar uns aos outros. Assim como não pensamos que não é espiritual para curar medicamente alguém por câncer ou leucemia, é bom providenciar tratamento para depressão e doenças mentais.

O que traz esperança nesta entrevista tão sombria?
As taxas de suicídio estão aumentando em todos os grupos demográficos. Mas se há uma luz é que a igreja agora está mais consciente de problemas de saúde mental do que era há 15 anos.
Em 2013, o pastor da igreja de Saddleback, Rick Warren, e sua esposa, Kay, perderam seu filho Matthew para o suicídio. Ele teve uma longa história de doença mental, e foi uma experiência devastadora para eles. Mas Kay já lançou o ministério de saúde mental de Saddleback e se esforçou para que a igreja fique mais atenta a essas questões. E, como resultado, as pessoas foram salvas do suicídio por causa de sua história e ajudando as pessoas a estar conscientes das realidades da doença mental.

Sou grato pelo trabalho de pessoas como Kay e Amy Simpson e seu livro “Mentes Perturbadas”. Existem recursos disponíveis para a igreja que não existiam há 15 anos. Na medida em que as pessoas são mais explícitas sobre as realidades da doença mental e do suicídio, mais podemos ajudar aqueles que lutam e salvam as pessoas em risco.

domingo, 10 de abril de 2016

Presídios: espinho da carne dos cristãos



Na descrição do juízo final que Jesus faz no Evangelho de Mateus, é afirmado que sempre que visitamos algum preso, foi a Ele que visitamos; e sempre que não visitamos, foi a Ele que não visitamos.

Habitualmente lemos este trecho como parábola, não como mandamento literal. E é uma leitura prudente.

Mas devemos prestar atenção se certos preconceitos escondidos dentro do nosso coração não fazem com que não leiamos as palavras do nosso Senhor de outro modo e o Seu mandamento deixa de ter valor para nós por esta razão.

Quais preconceitos?

- as pessoas condenadas merecem a pena a que foram sujeitas – e às vezes julgamos a punição branda demais. Dentro deste modo de pensar, nós resumimos estas pessoas a apenas um aspecto: são criminosas e nada mais.

- cadeia é lugar de bandido e lá não deve ter luxo. Quando pensamos assim estamos concordando, então, com os navios negreiros que trouxeram milhões de pessoas sequestradas em um espaço menor que 1 m² por pessoa, durante semanas, no mar? Por que os traficantes de escravos nos revoltam, mas a imagem de pessoas amontoadas em celas em condições sub-humanas não?

O fato de alguém ser condenada à pena de prisão (e quem não corre este risco? Quem não pode, em um momento infeliz, cometer um crime passível de aprisionamento?) retira dele(a) os direitos humanos elementares? O único retirado é o da liberdade. E o da dignidade? Do resgate? Da livre escolha?

Nossos presídios nos desafiam porque expõe a nós mesmos o quanto ainda temos que ser santificados e transformados. E o quanto resistimos a isto...”Ah Senhor, qualquer um, menos eu”.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

O Jogo dos Sete Erros

Usando as ideias discutidas nos textos anteriores (disponíveis na página do SADO), analise os erros cometidos na relação de ajuda na história abaixo, verdadeira. Como os personagens envolvidos foram feridos?

Graça era uma feiticeira em uma favela em Kampala, capital de Uganda. Ela decidiu tornar-se cristã através do trabalho missionário de uma ministra, Elizabeth. Ao fazê-lo, abandonou seu trabalho de feitiçaria, que lhe garantia a sobrevivência e financiava o seu alcoolismo pesado. Após sua conversão (e os efeitos eram visíveis, no seu comportamento, na sua face, na paz em que vivia) , compareceu assiduamente aos trabalhos da igreja na sua favela por 5 semanas, quando faltou pela primeira vez.  Os membros da comunidade, formada por refugiados financeiramente pobres, informaram que havia o boato de que ela estaria doente. A ministra e o autor do livro foram guiados por um deles até o local onde ela morava. Atravessaram ruelas mal cheiorosas, com fezes à mostra, esgoto a céu aberto, lixo dos mais variados tipos espalhados, pessoas jogando e se drogando. O autor é um norte-americano, alto até mesmo para os padrões do seu país. Enquanto caminhava, por 10 minutos, para dentro da favela, não deixou de, involuntariamente, chamar a atenção.
Graça foi encontrada na sua choça, praticamente inconsciente, ao lado de um prato sujo com restos de comida e mosquitos. Com dificuldade, a missionária conseguiu ouvir a explicação do que ocorrera. Graça tinha AIDS e estava com amigdalite. Procurara o hospital da localidade, que se recusou a tratá-la. Ela, então, pagou a uma conhecida para que lhe tirasse, com uma faca de cozinha, suas amígdalas.
Após orarem, ambos se retiraram rapidamente do local, retornando à igreja. O autor, sentindo-se impotente, comentou com os irmãos que temia que Graça sucumbisse em função de alguma infecção e indagou sobre o custo de antibióticos. O tratamento com penicilina custaria quinze mil shillings ugandenses, cerca de oito dólares (quase trinta reais). Ele retirou do bolso o dinheiro e passou-o à missionária. Como já era tarde, e ele não desejava deixar a favela à noite, foi embora e Elizabeth providenciou o medicamento.
Uma semana após, Graça compareceu à igreja plenamente recuperada e o autor do livro acreditou que havia salvado a vida dela aquele dia com a penicilina e os oito dólares.
Até que a ficha caiu... Quais foram os erros que ele cometeu?
do livro When helping hurts, cap 5